Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Animação Sociocultural e Animadores - A Etica na Formação e na Função do Animador

A Ética e a Deontologia na formação e na função do Animador

 

Num texto não assinado, inserido na Intervenção - Revista de Animação Sociocultural n.º 7, de Maio de 1978, é feita uma reflexão crítica sobre a dimensão ética da Animação Sociocultural. Aí afirma-se a dado passo:

“Uma participação activa e fraternal na vida comunitária não é somente um meio de obter mais compromissos ou de se ver livre doutros, é um objectivo moral em si. “Cidadania activa”, participação na comunidade – chame-se-lhe o que se quiser, ela não pode ser introduzida na vida senão quando as condições são favoráveis, quer dizer, quando o indivíduo pode ver claramente que a sua acção tem uma influência real nas decisões que dizem respeito à comunidade de que faz parte. Sempre que a sua influência se reduz a uma aprovação maquinal, sempre que as verdadeiras decisões são tomadas sem a sua participação, nos gabinetes dos funcionários e tecnocratas, sempre que todo o pôr em questão das decisões autoritárias dos políticos administradores e especialistas é mal vista, desencorajada e ignorada, falar de participação não tem qualquer sentido, a democracia torna-se mais um artigo na panóplia dos mecanismos possíveis de gestão duma organização...”

(Intervenção. Artigo s/a, 1978: p. 10)

 

 É com base nestes princípios norteadores que a Animação afirma a sua dimensão ética, no sentido de uma participação cívica que não se esgote em si mesma mas que seja conducente à autonomia e ao autodesenvolvimento pessoal. Numa palavra, uma ética que se estenda à consciência da cidadania e que tenha como horizonte utópico a realização da felicidade plena.

Concordamos com Requeijo (1992), quando refere os seguintes princípios éticos para uma intervenção socioeducativa que, do nosso ponto de vista, devem ser extensivas à dimensão da Animação Sociocultural:

“a) entrañar una ética ecológica que resalte la total comunidad de vida y unidad del género humano; b) abrazar una ética de la autorrealización, que coloque el valor supremo en el desarrollo del individuo; c) transmisión de un holístico sentido-de-perspectiva de la vida; d) coordinar las satisfacciones desde diversas dimensiones y no solamente las asociadas con el estatus y el consumo; e) ser experimental y finalista, mejor que ideológicamente dogmático.”

(Requeijo, 1992: p. 68)

 

O problema da ética relativamente à Animação Sociocultural e aos Animadores requer um debate e uma reflexão que se deve distender para além dos Animadores e da própria Animação, uma vez que nela estão envolvidas questões relativas ao homem/Animador no contexto social, político, cultural, educativo e económico. É nesta perspectiva que Ventosa (1993, pp. 117-123) e (2002, pp. 147-166) inspirado pela corrente de pensamento do Conselho da Europa, reflecte sobre a relação triádica do estatuto e da deontologia do Animador, que compreende uma instituição, os destinatários da Animação e o Animador.

As relações estabelecidas a partir desta tríade são entendidas a partir dos seguintes pressupostos: a instituição compreende a entidade empregadora do Animador e norteia a intervenção no meio onde se vai actuar; os destinatários são entendidos como os beneficiários da intervenção, a população o alvo a atingir. O objectivo central é a acção levada a cabo com as pessoas assente em metodologias que visem a participação e a autonomia; quanto ao Animador o seu papel é entendido em função de uma acção que articule as necessidades de uma população e os meios que conduzem à satisfação dessas mesmas necessidades.

Entendemos o problema ético e a dimensão deontológica da função de animar como compreendendo uma pluralidade de princípios sistematizados por Pantoja (1998). A sua reflexão, feita na revista Claves de Educación Social, n.º 3, de Abril, teve como objecto o código do educador social, por nós também identificado com o do Animador. Esses princípios são os seguintes:

·        Princípio do sentido profissional: compreendendo a realização responsável e séria de uma função determinada, conduzida no plano educativo, social e cultural e dirigida a um destinatário com o objectivo de o envolver num processo de desenvolvimento;

·        Princípio do sentido de serviço: mediante o qual se reconhece que o Animador é um educador social e ainda um profissional do sector educativo não formal, que possui como tarefa o prestar um serviço à comunidade e à sociedade. A sua função é apoiar as pessoas na resolução dos problemas, e, portanto, deverá intervir a partir de dinâmicas de Animação de grupos e não comportar-se propriamente como um “artista dos sete instrumentos."

·        Princípio da educação: traduzido em acções que passam por uma intervenção educativa que conduza ao aproximar as pessoas ao Animador este deve promover processos educativos que permitam um crescimento pessoal, uma inserção no meio e uma participação com sentido crítico na comunidade. O Animador deve ainda prosseguir uma acção educativa pensada e norteada a partir de valores como a tolerância, o respeito, a justiça, a paz, a solidariedade, a responsabilidade, o multiculturalismo, etc.

·        Princípio de justiça social: afirma que o indivíduo é detentor do direito ao uso e desfrute dos serviços sociais e educativos, direito esse que não deve ser entendido como uma dádiva de sistemas paternalistas, caritativos e de beneficência. Esta postura exige um plano integrado de intervenção num determinado meio, assumindo-se como uma prática continuada e não de forma ocasional, possibilitando assim uma vivência norteada pela interacção como meio de prevenção da degradação comunitária.

·        Princípio da coerência profissional: a partir do qual o Animador deve articular e assumir uma postura de coerência entre as suas ideias e a acção educativa que realiza, entre a sua vida privada e a sua vida profissional, sempre como forma de conferir credibilidade à sua função e à sua intervenção.

·        Princípio das características profissionais: que se traduz no facto de o Animador dever ser idóneo, maturo, responsável e emocionalmente equilibrado. Deve ainda deter outras qualidades, nomeadamente, comportamento aberto e flexível em termos de ideias e atitudes, ser portador de auto-estima, auto-controle, empatia, optimismo, paciência e ter consciência das suas capacidades e limitações.

·        Princípio da confidencialidade: traduzido na capacidade de guardar segredo profissional relativamente à instituição empregadora e em relação às pessoas com quem trabalha, deve ainda ser discreto e ser indutor de confiança.

·        Princípio da formação permanente: que compreende a ideia de uma aprendizagem permanente nos diferentes níveis de educação: formal, não formal e informal.

·        Princípio da solidariedade profissional: que se deve manifestar, quer ao nível das instituições que operam na Animação, quer ao nível dos profissionais das áreas sociais, quer ainda em relação aos Animadores que operam nos diferentes âmbitos da Animação, envolvendo sempre posturas activas, construtivas e solidárias.

·        Princípio de distanciação: entendido como forma de o Animador manter a distância adequada em relação a diferentes intervenções educativas, equilibrando o empenhamento profissional e a distanciação profissional de maneira a manter a capacidade crítica face às situações em que intervem.

·        Princípio da legalidade vigente: que postula o dever do Animador intervir dentro de um quadro marcado pela legalidade.

·        Princípio do respeito pelos direitos humanos: relacionado com o imperativo de preservar na acção o sentido da filosofia dos direitos humanos.

·        Princípio de respeito pelos usuários: relacionado com o dever de, na sua intervenção, o Animador respeitar a autonomia, a liberdade dos usuários de acordo com os princípios norteadores do respeito devido à dignidade da pessoa humana. Deve ainda ter presente o facto de embora a acção/intervenção ser política, a mesma deve ser apartidária e marcada pelo respeito da pluralidade política e pluralidade de crenças.

·        Princípio da coerência institucional: que diz respeito ao dever do Animador manter com a instituição para a qual presta serviço uma relação e uma postura crítica, construtiva, participante e coerente com a filosofia da referida instituição.

·        Princípio da participação comunitária: o qual se prende com o valor supremo da Animação, que é o de sempre promover a participação das pessoas de uma comunidade, procurando que elas adquiram e criem os seus próprios recursos, levando-as assim a um estado de melhoria da qualidade de vida e à autonomia plena.

·        Princípio do trabalho em equipe: na medida em que um trabalho de intervenção requer o uso de diferentes linguagens, tecnologias e metodologias, espera-se do Animador a capacidade de trabalhar em equipe e, para tanto, ser portador de abertura, respeito, solidariedade, bem como ser conduzido pelas regras do saber estar e do saber trabalhar em grupo.

·        Princípio de respeito e cumprimento do código deontológico: segundo o qual o Animador profissional deve nortear a sua intervenção a partir de um código de referência, que passa sempre na sua intervenção pelo conhecimento profundo dos deveres, direitos e princípios devidos para com a instituição para quem trabalha e para com os destinatários do programa de intervenção.

 

Nota: Extraido do Livro de Marcelino de Sousa Lopes, A Animação Sociocultural em Portugal

 

 

publicado por marcelinoslopes às 17:39
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